É grã-fina, mas está aqui. Estelionato. Deu golpe na praça. Um-sete-um. Tem que pegar cana mesmo. Tá pensando que é só pobre que vai preso? Meteram a madama no xilindró. A madama quer café? A madama está a pé! A madama ninguém quer.
Sofreu aqui dentro a coitada. Apanhou, mas de dar dó. Socialite dos Jardins. Dona Zazu era da alta. Vivia no Iguatemi. Sóbria, séria, comportada. Era pudica e recatada. Respeitada na embaixada.
Grande exemplo de esposa. Ela servia de modelo. Pras peruas e raposas dos lados do Morumbi. Estelionato. Um-sete-um.
E sabia se portar. Falar, comer, se vestir. Mas diz que tinha era um caso. Dava pro tal de Valdir. Porteiro, zelador, sei lá. Do condomínio onde morava. Duplex chique, coisa assim. Diz que tinha piscina, o escambau. Seu Valdir, homem grosseiro, mas gostava de servir. De confiança do grã-fino.
Mas ninguém era de ferro. Quem sabe latão, ou cobre. A grã-fina, o pobre. Que não era de se jogar fora. Ela. E só quem sabia era o porteiro. Ele.
Bronco, mas de confiança. A grã-finagem já dizia. Um dia subiu pra arrumar. Resistência, ducha, enfim. Quem tem resistência é pobre! O chuveiro, claro. Assim, talvez fosse o encanamento. Ela foi pedante e pronto. Ele não levou pra casa. O desaforo. Foi pro quarto.
Ela deu um tapa nele, ele deu um tapa nela, ela foi parar lá longe e deu no que deu na janela. Seu Valdir já perdeu antes. Emprego, por ser grosseiro. Dessa vez, ele ganhou. Amante a fim de apanhar.
Lá quem mandava era ele. Na ausência do marido. Para o caldo não esfriar. Diz que a madama chamava, provocava, apanhava, dava e dormia. E ele, já pra portaria. E ela aprendeu a andar.
Por suas próprias pernas. Abriu a porta dos Jardins, contornou Higienópolis, se pôs livre no mundo. Pra encontrar com vagabundo. Ia em sauna, ia em clube. De chicote e salto-agulha. Vendeu o poodle que era pink. Mas ficou com a coleira. Enfim, gozou. Foi a primeira. No catiripapo e peia.
À noite, voltava o marido. Caiu no deck solarium? Escorregou no ofurô? Torceu, deu mau jeito no treking? No treco? No tronco? No troço? Que raio de casa é essa, Zazu? Por que não chamou o porteiro? É pra isso que pagam o Valdir. E Zazu ria sem sorrir.
Um dia, o marido cismou. Cortou a mesada, voltou. O cheque dessa sex shop. Diga em voz alta três vezes. O cheque dessa sex shop. O cheque dessa sex shop. O cheque dessa sex shop. Voltou o danado três vezes. Não podia cobrir já há meses. Nem ela, nem quem a cobria. De porrada, prazer e alegria.
Também sabia bater. Como o cheque, batia e voltava. Notificação. Oficial de justiça. E o marido não cobria. Nem o cheque. Nem sabia. Como explicar?
Notificação. Oficial de justiça. Não tinha com, nem pra quem contar. Pois eu conto. Conto. Por cem conto. Cana. Foi pro pau. Tá presa. No processo consta. Toda a compra feita.
Muito couro, algemas. Espinho, corrente. Tinha até mordaça. Está lá nos jornais. Da tarde e da hora. Na Oscar Freire, presa. Algemada afora. Passando um caução.
Foi pega em flagrante. De calças na mão. No cheque. Na bolsa. Celular. Balcão. Na porta. No poste. No homem passando. No camburão velho. Almofada-carimbo. Na ficha, na grade, no rosto, no chão.
Teve a vida devassada. Mal falada na Lorena. Quem desdenha quer comprar. Da Ouro Fino ao Q!Bazar. E o pior você não sabe. Ela gostou muito de cá. Gostou da algema, dos sopapos. Dos maus-tratos dos colegas. Que não gostam de bacana. Já entrou com habeas corpus. Pediu mais uma semana.